quarta-feira, 13 de junho de 2012

No começo eu nem gostava dele, sabe? Eu ia levando, ia mentindo. Mentindo não, omitindo. Depois eu fui acreditando nas coisas que eu falava. Ah! como eu fui gostando dele. Parecia aqueles biscoitinhos de abóbora que davam no super mercado em época de São João, sabe? Então, eu nem gostava de abóbora. Comia só porque era grátis. E advinha o que eu passei a amar? Biscoito de abóbora. Aliás, tudo que eu comia de abóbora eu gostava. Comi tanto que cheguei a passar mal. Uma pena ter associado ele a abóbora. Hoje quando eu como abóbora fico tão mal que parece que é ela que me come. E me cospe.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Decifra-me ou devoro-te.

Por que André e não Felipe?
Por que não André Felipe?
Porque André não é Felipe.
Pois na verdade Felipe não é André, não é?
Porque André pode ser Felipe mas Felipe não pode ser André, pois é.
Por que André e não Felipe?
Por que não André, Felipe?

quinta-feira, 26 de abril de 2012

-Você me acha bonita?
-Sim.
-Sabe, a minha mãe era bonita.
(Silêncio)
-Não entendo o mal das mulheres bonitas.
-Não entendi.
-Ela se casou três vezes.
(Silêncio)
-Ninguém a tratou bem.
-Sinto muito.
-Todos, um por um. Todos a trataram como lixo.
(Silêncio)
-E ela começou a se achar um lixo.
-E começou a feder como lixo.
-Parou em um aterro sanitário.
...
-Mas era lixo orgânico. Não se reciclou.

domingo, 8 de abril de 2012

A(maria)

-Nasceu! -Exclamava o médico. 
-A sua filha nasceu!
O médico encostou um corpinho pálido no colo da mãe.
-Escute, escute o coraçãozinho dela.
E a mãe dobrou-se para escutar. Franziu a testa.
-Mas doutor, aqui nada bate.
-A sua filha está viva, senhora.-E realmente estava, só não chorava. -Se esforce mais.
-Doutor, a minha criança não tem batimentos, ela não...
Os enfermeiros a pegaram no colo, ela não batia de fato.
Levaram-na para a sala cirúrgica. Abriram o pequeno corpinho murcho. Ela tinha crânio e veias, artérias, o sangue circulava. Tinha estômago, pâncreas. Digeria. Mas o coração não estava no lá. O caso foi considerado como incrível. Teve alta. Cresceu. Normal. Digeria. Pensava. O sangue passeava em em larga escala dentro dela. Nada palpitava nem ardia.
Maria então encontra a Paixão. Não dentro dela, pois não tinha como conceber. Encontrou a Paixão, uma moça bonita. Maria ardeu. Até que um dia pegaram fogo. Ao acordar ao lado da Paixão ela sentiu pela primeira vez algo pulsar. Demais. Maria incendiou.
Quando foram sepulta-la, não encontraram nem crânio, nem pés, nem mão, só coração.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

-Está frio aqui.
-Este apartamento está horrivel.
-Eu sei, acho que é por causa do mofo.
- Eu posso dar um jeito nestas paredes mofadas. Parece que a água da chuva se infiltrou entre o gesso e a pintura.
-Está mesmo muito velho. Acho que preciso de um novo.
(Pausa)
-Então, quando pretende começar a reforma?
-Não muito tarde. Este apartamente está demasiado frio para a minha pele enrrugada.
-É o mofo. Realmente temos que dar um jeito nestas paredes mofadas do seu apartamento. Eu posso ajudar.
(Pausa)
-Quando pretende começar a reforma? Eu posso dar um jeito nestas paredes mofadas do teu coração.
-Está mesmo muito velho. Acho que preciso de um novo.
(Pausa)
-Está frio aqui.
-Quer que eu ligue a lareira?
-Não. Está frio aqui, dentro de mim.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tereza


Tinha quatro anos quando lhe disseram que se tomasse veneno morreria. Com cinco anos perguntou o que era era veneno e o que era morrer. 
- Veneno, minha filha, é tudo o que faz mal. - Explicou a mãe paciente.
- E morrer, querida, é deixar de amar. 
E, assim ela cresceu: vendo gente se matar, se envenenar. 
Cresceu mais um pouco, não muito, mas o suficiente para amar. Experimentou venenos, foi traída e visitou o hospital do choro pela primeira vez. 
Até que descobriu que o que fazia mal era a tristeza e o que matava não era a falta de amor e sim o amor em demasia.
Fez de tudo para deixar de amar mas não conseguiu.   
A pobre Tereza, tomou amor e morreu. 
A mãe, em prantos, exclama: 
- Mas eu te avisei, Tereza, avisei que se tomar veneno, morre. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012